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A estória de Bernardo Kohler
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Werner Kohler era um fazendeiro alemão que mudou-se para a Guatemala nos anos 60. Ele cultivava flores e legumes, e eventualmente guardou dinheiro suficiente para em 1974 juntamente com mais dois amigos, comprar um sítio numa área da Guatemala conhecida por Peten. Nesse sítio ele vivia e trabalhava para sustentar sua esposa e filhas.

Peten era um lugar mágico: animais por todo o lugar, macacos balançando nas árvores, papagaios, e durante a noite havia vaga-lumes suficientes para iluminar os arredores da casa.

Em 1977 a Texaco chegou e começou a explorar petróleo. A princípio “Bernardo” (nome pelo qual era conhecido na Guatemala) era um bom vizinho para Texaco. Ele alugou um pedaço de terra para eles poderem construir as casas para os trabalhadores. Logo após a chegada da Texaco chegaram os militares e montaram uma base. Foi quando os problemas começaram. Eles diziam que estavam lá para proteger a Texaco das guerrilhas, mas na verdade eles só causaram problemas. Tinha-se a impressão que eles não tinham muita coisa para fazer. Bebiam com muita frequência. As vezes eles não pagavam os fazendeiros pela comida outras vezes animais eram roubados das fazendas. Até casos de mulheres sendo violentadas começaram a surgir no vilarejo. Ainda por cima, os militares começaram a pressionar Bernardo a vender sua fazenda por um preço muito abaixo do que ele havia pago. Ele recusou-se. Bernardo não era um ativista politico, mas falava o que pensava. Ele falava contra os militares quando estes causavam problemas com as pessoas do vilarejo e os fazendeiros, e quando queriam comprar sua fazenda ele não sentiu medo em dizer” não” a eles. Ele queria viver em Peten para o resto de sua vida.

Em outubro de 1979, a esposa de Bernardo recebeu um telefonema da Texaco dizendo que eles tinham ouvido tiros e que Bernardo e seu amigo Pedro estavam desaparecidos. Ela imediatamente correu para o hospital mais próximo a procura deles e lá encontrou um vizinho, Ovideo, que havia tomado um tiro. Os soldados haviam ferido Ovideo quando ele tentava proteger sua esposa pouco antes deles capturarem Bernardo e Pedro. Os soldados rodeavam sua cama e Ovideo estava com muito medo de dizer qualquer coisa sobre o que havia acontecido. Esta foi a ultima vez que Ovideo e sua família foram vistos.

Um dia depois, retornando para casa do hospital, a esposa de Bernardo encontrou os corpos do marido e amigo flutuando no rio e com sinais de tortura. Com a ajuda de algumas pessoas do vilarejo, ela recolheu os corpos, mas os soldados vieram com suas armas e exigiram que ela os enterrasse ali mesmo. Ela tentou conseguir ajuda da embaixada alemã, mas lhe disseram apenas que saísse do pais. Ela começou a receber telefonemas ameaçadores dizendo que suas filhas seriam as próximas. Com a ajuda de um parente na California, ela conseguiu mandar suas filhas para os Estados Unidos. Depois disso, abandonou o sitio e foi para junto das filhas na California.

Katja, filha de Bernardo, tinha 11 anos quando mudou-se para Guatemala. Ela nunca imaginou que voltaria, estava muito assustada, mas 12 anos depois ela retornou com uma delegação de estudantes.

Em 1996 ela conheceu FAMDEGUA (Famílias de Detidos e Desaparecidos na Guatemala). Através de pesquisas ela descobriu que FAMDEGUA estava exumerando um cemitério clandestino em Chal, Peten, a poucas horas do lugar onde sua família havia vivido. Ela permaneceu e ajudou o projeto por algumas semanas. Katja ouviu pessoas falando sobre entes queridos que haviam sido mortos ou desaparecido, mas as pessoas ainda tinham medo de mencionar nomes dos generais responsáveis pelos assassinatos. Em vez disso, iam a base militar e escreviam os nomes dos assassinos nas paredes com folhas ou giz.

Em 1998, Katja juntamente com seu marido Marshall Gause, voltaram para incluir o caso de Werner “Bernardo” Kohler e Pedro Valerio no U.N. Clarification Report. Trabalhando com FAMDEGUA para encontrar o corpo de Bernardo e exumá-lo para que os antropólogos forenses pudessem fazer uma autópsia, negada pelos militares anteriormente.

Durante muito tempo Katja viveu sem falar sobre a morte do pai, mas quando encontrava outras pessoas que também tinham parentes que haviam morrido ela compreendeu que era importante tocar no assunto. Quando ela viu os ossos de seu pai, porque nunca pode dizer-lhe adeus, ela sentiu-se libertada. A morte de Bernardo estava registrada como vítima de uma bala perdida, quando obviamente ele havia sido torturado e assassinado pelos militares. Quando Katja finalmente viu a U.N. Clarification Report, ainda que o caso de Bernardo resumia-se a somente quatro linhas em um volume de milhares de outros casos, ela tinha a esperança que este era o começo do caminho da justiça.

Projetos como o Remi Report apresentado pelo bispo Gerardi da U.N. Clarification Committee trabalham com essa finalidade. Eles reconhecem que 36 anos de guerra civil não era apenas uma guerra entre as guerrilhas e os militares, acima de tudo muitas pessoas inocentes morreram ou desapareceram. Estes eram estudantes, padres, fazendeiros, organizadores de sindicatos, indígenas, trabalhadores dos direitos humanos, e outros que viviam suas vidas em paz e trabalhavam para melhorá-la.

FAMDEGUA leva o trabalho da U.N. um passo adiante, proporcionando enterros apropriados para as vítimas com cerimônia familiar e formando casos na corte com a intenção de julgar os responsáveis.


 
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